Sônia enquanto prepara uma embalagem com salgados
No quadro “Qual é o seu negócio?”, Sônia Aparecida da Silva — a Sônia da Trivial Salgados contou como, há 31 anos, trocou o trabalho como bancária por uma receita de pão de queijo que virou um negócio de salgados de sucesso .
Nascida em Araruna, no Paraná, e criada em Cianorte, Sônia, aos 17 anos, mudou-se para Campinas (SP) para trabalhar em um escritório de contabilidade. Mais tarde, ingressou em um grande banco, onde pediu transferência de volta a Cianorte. Foi lá que se casou e, depois, se mudou para Goioerê.
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Durante anos, Sônia trabalhou com números — sempre na área administrativa e financeira. Mas foi depois de sair do último emprego de carteira assinada que a vida deu uma guinada.
Desempregada e em uma cidade em crise, Sônia recebeu um empurrão de uma amiga mineira, Ana Lúcia Bastos. “Você é uma boa cozinheira. Faz pão de queijo para vender”, disse Ana Lúcia.
Sônia nunca tinha feito pão de queijo antes. As primeiras tentativas foram um desastre. “A massa é muito liguenta”, reclamava. Mas Ana Lúcia foi até a casa dela, ensinou o ponto certo e deu as primeiras dicas.
O primeiro cliente não foi um supermercado, nem uma padaria. Foram os professores, na hora do intervalo. Sônia pedia autorização ao diretor, assava uma forma de pão de queijo e servia quentinho na sala dos professores. Quando alguém pedia para comprar, ela já tinha uma caixa de isopor no carro com pacotinhos prontos.
O sucesso foi crescendo. Sônia construiu um cômodo nos fundos de casa, contratou uma funcionária e começou a produzir em maior escala. Mas foram os próprios clientes que pediram a expansão do cardápio.
Ela convidou dona Lia, uma senhora que fazia esfirras tradicionais, para ensinar a receita. Depois vieram a coxinha, o pastel, o pão de batata com catupiry e, finalmente, a mini pizza — hoje o produto campeão da Trivial.
Um dos momentos decisivos veio com um curso do Sebrae, ministrado por um consultor chamado Osório. Ele analisou os produtos de Sônia e começou pela pizza.
— Quanto mais pizza você vender, mais pobre você vai ficar — disse Osório.
Sônia ficou chocada. Ela achava que estava tendo um lucro violento. Mas Osório mostrou a conta: a pizza estava sendo vendida abaixo do preço de custo. “Ou você coloca o preço correto ou tira do cardápio.”
Ele montou uma tabela completa, com impostos, lucro líquido, retirada e percentuais. Sônia aumentou os preços com medo, mas o produto continuou vendendo. A lição foi essencial: precificar corretamente não afasta clientes de um produto de qualidade.
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O trabalho e a dedicação renderam um prêmio importante. Sônia foi reconhecida pelo Sebrae como Mulher Empreendedora, conquistando o terceiro lugar no estado do Paraná. Uma viagem glamourosa a Curitiba, com tudo pago, coroou a trajetória de uma mulher que começou fazendo pão de queijo no fundo de casa.
Outro marco desafiador aconteceu quando os produtos de Sônia foram apreendidos pela Vigilância Sanitária em Cianorte. O motivo: a etiqueta era simples demais — só nome, validade e preço. Era necessário código de barras e tabela nutricional.
O prazo para regularizar era 30 dias. Mas o processo levou dois anos. Na época, tudo era manual. Sônia preenchia formulários para cada produto, contando a história e o processo de fabricação. Os papéis iam de Goioerê a Campo Mourão e voltavam. “Era papelada que ia e vinha, ficava no fundo da gaveta, o tempo passava”, lembra.
Em vez de desistir, Sônia aprendeu a calcular o valor nutricional de cada produto sozinha. Hoje, ela tira a tabela de qualquer item do cardápio.
Com a pandemia, o negócio enfrentou o maior susto. Sônia tinha 21 funcionários registrados e entrou em desespero. Com uma linha de crédito do banco, pagou todos os direitos trabalhistas e reduziu a equipe.
Restou ela, a “equipe” de uma pessoa só. Depois, com o delivery, ela começou a contratar diaristas. Hoje, a Trivial Salgados conta com oito funcionários e opera com um modelo mais enxuto e sustentável.
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O que começou nas escolas de Goioerê hoje chega a várias cidades do Paraná. Sônia distribuiu seus salgados congelados para Maringá, Umuarama, Cascavel e até para o Parque Nacional do Iguaçu.
O segredo? Um produto de qualidade que conquistou revendedores e consumidores. A mini pizza e o pão de batata com catupiry são os carros-chefes, mas o cardápio é extenso.
Quem conhece a Trivial Salgados de hoje nem imagina que o negócio começou em um espaço bem diferente. A primeira sede ficava, no bairro Cidade Alta, em Goioerê — onde funcionava a Casa das Massas, uma modesta construção de portas abertas para a comunidade. Foi ali que Sônia deu os primeiros passos, entre fornadas de pão de queijo e salgados que conquistaram os vizinhos.
Com o crescimento do negócio, o espaço antigo ficou pequeno. De lá para cá, Sônia fixou endereço na Travessa Anastácio Borges, 125. Agora, Sônia investiu em uma nova sede, moderna e preparada para atender a demanda crescente. O novo endereço da Trivial Salgados, que será inaugurado em breve, ficar na mesma travessa, ao lado do endereço onde permaneceu por mais de 27 anos. A mudança de local simboliza a transformação da empresa: saiu da informalidade no fundo de casa para se tornar referência em salgados congelados em toda a região.
Contudo, a essência permanece a mesma. As receitas que nasceram naquela cozinha simples da Cidade Alta seguem sendo produzidas com o mesmo cuidado. O que mudou foi o tamanho do sonho.
Para quem está começando, a dica de Sônia é clara: invista em conhecimento. O Sebrae foi fundamental para ensinar a administrar, precificar e lidar com pessoas. Mas a verdadeira força veio de dentro.
“Eu me considero uma pessoa guerreira. Aprendi a tirar o valor nutricional de qualquer produto, lutei em cada etapa e nunca desisti.”
Trinta e um anos depois, a receita que começou com um pão de queijo, duvidoso para ela, se transformou em um negócio sólido, reconhecido e admirado. Essa é a prova de que, com determinação e aprendizado contínuo, qualquer receita pode virar um grande negócio.
O “Qual é o seu negócio?” vai ao ar todas as terças-feiras no programa Almanaque, na 104 FM. É um espaço dedicado a contar histórias reais de mulheres empreendedoras, artesãs e empresárias da região.
A proposta é mostrar que por trás de todo grande negócio existe uma história de superação — os acertos, os erros, as noites sem dormir e as viradas de chave que transformaram um sonho em realidade. Seja uma receita que virou empresa, um artesanato que virou sustento ou uma ideia que virou marca, o quadro prova que os maiores negócios também enfrentam desafios, dúvidas e recomeços.
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