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Sobram vagas, faltam candidatos: o paradoxo do mercado de trabalho no interior do Paraná

Um cenário paradoxal se espalha pelo interior do Paraná: enquanto milhares de paranaenses buscam por uma oportunidade, centenas de vagas de emprego formais permanecem ociosas, sem candidatos para preenchê-las. Dados das Agências do Trabalhador do Estado mostram que, no início de 2026, mais de 8,7 mil vagas estavam abertas em todo o Paraná. Em municípios do interior, a situação é ainda mais crítica, com dezenas de oportunidades disponíveis há semanas.

Cidades como Goioerê, Cafelândia, Campo Mourão, Umuarama e Cascavel são exemplos onde a oferta supera, e muito, a procura. Em Goioerê, a agência localizada na Avenida Tiradentes, 150, divulgou uma lista com mais de vinte cargos diferentes – de analista de engenharia a padeiro, passando por mecânico agrícola e auxiliar de vendas –, mas o movimento de candidatos nas entrevistas é baixo.

O volume de atendimento na agência de Goioerê é expressivo, cerca de 700 por mês, indicando que há pessoas em busca de oportunidade. No entanto, o desencontro entre perfil da vaga e perfil do candidato é frequente.

Por que as vagas não são preenchidas?

De acordo com a própria Agência do Trabalhador de Goioerê, vários fatores explicam a dificuldade:

  • Desajuste de habilidades: A falta de qualificação específica entre os candidatos para as vagas disponíveis.
  • Expectativas salariais: Uma diferença entre o que os candidatos esperam receber e o que as empresas oferecem.
  • Localização e deslocamento: Vagas em áreas de difícil acesso ou que exigem longos trajetos diários se tornam pouco atrativas.
  • Condições de trabalho: Turnos irregulares, especialmente em frigoríficos e indústrias, afastam os interessados.

A gerente da agência em Goioerê, Ananza Scholz, destacou que as vagas de auxiliar de produção estão entre as mais difíceis de preencher, justamente por muitas vezes envolverem turnos noturnos, trabalho intensivo e, por vezes, uma percepção de desvalorização da função.

Estratégias das empresas não resolvem

A dificuldade não é um problema apenas das pequenas cidades. Em Maringá, uma usina de açúcar adotou uma medida extrema: contratou divulgadores para percorrer as ruas anunciando mais de 400 vagas, com salários a partir de R$ 2,8 mil. Ainda assim, a resposta foi abaixo do esperado.

Na região de Cianorte, Cafelândia, Umuarama, Ubiratã e Assis Chateaubriand, os abatedouros – setor tradicionalmente grande empregador – também enfrentam o mesmo problema. Anúncios maciços em rádios e redes sociais, repetidos várias vezes ao dia, não têm sido suficientes para atrair interessados.

A sombra do benefício social e a questão da qualificação

Especialistas e gestores locais apontam um dilema: parte dos trabalhadores teme perder benefícios sociais, como o Bolsa Família, ao assinar a carteira de trabalho. A legislação, no entanto, protege o beneficiário: ele pode manter o auxílio por até dois anos após conseguir um emprego formal, desde que a renda familiar per capita não ultrapasse meio salário mínimo.

Questionada sobre se o programa é um dificultador, a representante da agência em Goioerê foi cautelosa: “Algumas pessoas podem hesitar em aceitar um emprego formal devido ao receio de perder os benefícios do programa, especialmente se o trabalho não oferecer uma renda significativamente maior ou estável“.

Outro pilar do problema é a falta de qualificação. “A capacitação técnica e profissional é fundamental para atender às demandas do mercado”, afirmou Ananza. A agência oferece cursos, mas a desconexão entre o que se ensina e o que o mercado exige, somada à “falta de oportunidade”, faz com que muitas vagas técnicas fiquem ociosas.

Impacto econômico e busca por soluções

A escassez de mão de obra afeta diretamente setores vitais para a economia regional: indústria, comércio e serviços. Em Cascavel, frigoríficos e empresas de produção têm milhares de vagas abertas, o que compromete a expansão das atividades e gera preocupação entre os empresários.

Para tentar reverter o quadro, as agências têm ampliado os canais de divulgação, usando redes sociais, parcerias com escolas e universidades e eventos de emprego. Como solução de médio prazo, a aposta é em qualificação real e em conscientização.

Ofertar treinamentos para as pessoas terem posicionamento na hora da entrevista de emprego, aprimorar programas de qualificação alinhados com o mercado e promover parcerias entre empresas e instituições de ensino são caminhos“, listou a gerente, acrescentando a importância de ofertar mais vagas para Jovens Aprendiz como porta de entrada no mercado.

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Conclusões e Análise

Os dados e depoimentos revelam um problema complexo, que vai muito além da simples “falta de vontade de trabalhar”, como alguns podem simplificar. Estamos diante de um descompasso estrutural no mercado de trabalho do interior.

Primeiro, é ingênuo achar que o Bolsa Família é o vilão. O receio de perder o benefício é sintoma de uma desconfiança na estabilidade e na atratividade do emprego formal oferecido. Se um trabalho com carteira assinada, em turnos exaustivos, paga apenas um pouco mais do que a soma do benefício social e do trabalho informal, a opção racional pode ser permanecer como está. A solução passa por salários mais dignos e condições de trabalho mais humanizadas.

Segundo, a “falta de qualificação” soa como um mantra, mas é uma responsabilidade de mão dupla. As empresas precisam se aproximar das instituições de ensino e das agências para desenhar cursos que realmente preparem para as vagas existentes. Não adianta oferecer cursos genéricos enquanto as indústrias locais precisam de operadores de máquinas específicas ou técnicos em manutenção com conhecimentos especializados.

Por fim, há um evidente problema de comunicação e logística. Se as vagas estão nas indústrias da zona rural ou em polos distantes dos centros urbanos, é preciso pensar em políticas públicas ou iniciativas privadas de transporte subsidiado ou até de moradia próxima. A matéria mostra que o problema não é a falta absoluta de candidatos, mas a falta de candidatos que possam ou queiram se deslocar para aquela vaga, naquelas condições.

O interior do Paraná está gerando empregos, mas está falhando em conectá-los às pessoas. Resolver esse impasse exige um esforço coordenado que envolva poder público (municipal e estadual), setor privado e sociedade civil. Do contrário, o crescimento econômico dessas regiões ficará permanentemente travado pela falta do recurso mais essencial: o trabalhador.

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Redação 104 News

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